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Caboclinho conta o que ouviu menino
Manoel, filho de Pedro Bongado (82 anos)
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Ninguém
sabe dizer quando o primeiro mestre decidiu formar o primeiro Baile de
Congo de São Benedito nestes sertões do Rio Itaúnas. Mas a tradição
oral situa os bailes mais antigos nos tempos do cativeiro, como nos conta
Ângelo Camilo, o Caboclinho,
“dono” atual do Ticumbi do Bongado.
O carpinteiro ouviu na infância as histórias que relata: “Quem me
contou foi vovó Livina, vovó Carolina, vovó Cristiana e tia Maria
Hortiz. Tudo gente que trabalhou na escravidão”, explica.
No começo, segundo relato de Caboclinho, o Ticumbi era brincado na
fazenda do Barão de Timbuy, senhor
destas terras, temido por seus escravos. Eles o tinham na conta de homem
muito mau. “Os antigos contavam que ele punha negro no tronco e queimava
filho de escrava no forno da farinheira”, narra. “Só que no Dia de São
Benedito ele ficava igual a qualquer um escravo. Ficava como cativo. Eram
três dias de festa” – explica Caboclinho.
A sede da fazenda, próximo à foz do córrego Santa Izabel, vivia todo o
preparativo da festa até o Ensaio Geral e, sempre no dia 20 de janeiro,
os congos desciam o Rio de canoa para brincar na Itaúnas
Velha, hoje soterrada sob dunas de areia com até 40 metros de
altura. “Eu ainda vi o palacete quase todo em pé. Escada, tronco e
tudo. Tinha um tronco muito grosso na frente da casa, com elos de corrente
e umas algemas de botar no pé. Ali prendia o escravo que ficava só
rodando no tronco”, relata Caboclinho
Com o fim da escravidão, do reinado, do baronato, a chegada da República
e dos primeiros imigrantes, muita coisa mudou – menos o Baile
de Congo de São Benedito. Caboclinho lembra que vovó
Cristiana declarou ter perto de 140 anos quando morreu e tia Maria Hortiz,
120. “O mestre mais antigo que eles comentavam era um tal de Rafael, mas
não sei dizer direito que ano era isso”, comenta. Menino de colo, Ângelo
Camilo assistiu as primeiras brincadeiras nos braços da mãe e afirma que
ainda existiram outros mestres depois de Rafael, até que entre 1920 e
1930 o comando da brincadeira passasse às mãos de Pedro
Bongado: Filho de vovó Livina, negro livre, morador nas terras
esquecidas do Barão de Timbuy.
Os preparativos e o Ensaio Geral passaram a acontecer na casa de Pedro
Bongado, poucos metros rio abaixo do antigo palacete, mantendo-se a tradição
de descer o Itaúnas até a Igreja da Vila Antiga, sempre no dia 20 de
janeiro, para louvar São Benedito. Antero Falcão dos Santos e Casimiro
Bongado eram guia e contra-guia nos Bailes de Congo de então. Antônio
Cossani, Manoel Velho e Valdete, entre outros vizinhos de terras brincavam
com o Mestre Pedro Bongado. “Mestre é o responsável pela disciplina e
o criador dos versos”, define Caboclinho.
(continua na próxima edição)
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