Guia Itaúnas

Memórias de tradição oral 2 (o racha)


Caboclinho conta o que ouviu menino

(continuação)
“Pedro Bongado morreu, se não me falha a memória, em 1957 ou 1958. O grupo ainda ficou unido por alguns anos, até que, por conta da construção de uma capela nova para São Benedito, em Pedro Canário, Antero decidiu montar outro Ticumbi para ele”, resume Caboclinho, referindo-se ao surgimento do Ticumbi de Itaúnas. Enquanto houve união também se fez história. Mané Vito saía com o tambor de São Benedito para o sertão, fazendo Roda de Jongo e arrecadando dinheiro para a festa do santo. “Ia a cavalo, com meus companheiros, até Mucuri. Levava o Santo e convidava para a festa”, lembra o cantador, hoje com 90 anos.
E tem o Santo. A imagem que acompanha a brincadeira do Ticumbi do Bongado foi a primeira de São Benedito a chegar ao Vale do Itaúnas. Quando? Também ninguém sabe. Mas é censo comum que o Santo vem sendo louvado nela desde a escravidão. O certo é que por volta de 1960, ainda segundo Caboclinho, um padre designado para serviços na Igreja de São Sebastião, na Itaúnas Antiga, determinou que se retirasse São Benedito da Igreja. "Naquela época, dizem que foi órdem da Igreja. Hoje é diferente. Heje tem outra mentalidade. Os padres de hoje não rejeitam o Santo" -  argumenta Caboclinho. A imagem foi levada para a Matriz de Nossa Senhora da Conceição, na Cidade de Conceição da Barra, de onde foi recuperada, sem coroa de ouro, pelo então delegado Andronino. Impossibilitado de retornar com a imagem para Itaúnas, ele prometeu jamais devolvê-la à Igreja. Pitônio, filho de Andronino, é hoje o guardião da imagem. Eles moram no Quilombo Novo, distrito de Santana, aqui mesmo no Município.
Na divisão dos grupos folclóricos o Ticumbi do Bongado ficou com a imagem, mas logo ganhou novo mestre. Anízio Ribeiro, filho adotivo de Pedro Bongado, assumiu a brincadeira até passá-la para as mãos de Caboclinho. “Eu estive à frente da brincadeira por um tempo, mas hoje sou o tocador da viola”, explica Ângelo Camilo. Wantuil Gomes e Alcides Barcelos mantêm em pé a tradição da brincadeira, resgatando pérolas do passado, como os pandeiros artesanais de couro de cabrito e as Rodas de Jongo ao final dos ensaios.



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