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Não
se haverá de falar em tradição sem citar as rodas de jongo. E ninguém
tocará o jongo sem mencionar Mané
Vitor:
noventa anos de idade e um cantar de passarinho. Vai até onde as pernas
já retorcidas o levam em busca da festa, apoiado em sua bengala, por
devoção a São Benedito.
Vez que outra bate tambor, mas sempre é quem dá o tom da cantiga:
"Queimou, queimou, queimou meu canavial", Mané
Vitor
solta o verso da garganta, ao que a roda responde: "Por conta do
desaforo, vou deixar de trabalhar". E emenda uma cantiga na outra,
lembrando dos tempos dos companheiros Andronino, Antero e Argemiro, com
quem dividia a tarefa de festejar o Santo.
Antigamente cabia a Mané
Vitor
esmolar para a festa. Andava a pé durante semanas varando mata, de
comunidade em comunidade até Mucuri, na Bahia, tocando pelas casas para
arrecadar dinheiro. E o povo, como hoje, dançava o jongo - uma mandala
viva, onde cada um tem sua vez de ir ao centro da roda, embalados por
tambores e casacas. |